Nº 12210 de novembro de 202153:07efeméride
Timor e os 30 anos do massacre de Santa Cruz
O episódio analisa os 30 anos do massacre de Santa Cruz (12 de novembro de 1991) em Timor-Leste, recuando à presença portuguesa desde o século XVI até à ocupação indonésia (1975-1999). Rui Ramos e João Miguel Tavares explicam como a invasão indonésia, inicialmente apoiada pelos EUA e Austrália no contexto da Guerra Fria, foi travada pela resistência timorense baseada na identidade católica e pela pressão internacional desencadeada pelas imagens do massacre filmadas por Max Stahl, conduzindo ao referendo e à independência em 2002.
Ideias principais
- A presença portuguesa em Timor foi essencialmente missionária desde o século XVI, com ocupação administrativa efetiva apenas em 1911-1912, distinguindo-se entre presença comercial e colonização propriamente dita.
- A identidade católica timorense, consolidada paradoxalmente durante a ocupação indonésia (de 20% em 1975 para 98% em 1990), tornou-se a base da resistência nacional, num paralelo com o papel do catolicismo na Irlanda sob ocupação britânica.
- O massacre de Santa Cruz em 1991, filmado por Max Stahl e divulgado internacionalmente, transformou Timor de questão separatista em causa de direitos humanos global, acelerando decisivamente o processo de independência oito anos depois.
- Portugal manteve-se como potência administrante reconhecida pela ONU entre 1975-1999, usando a diplomacia europeia e internacional para pressionar a Indonésia, numa tentativa de redimir o abandono precipitado da descolonização de 1974-75.
- A independência de Timor-Leste em 2002, precedida de referendo e eleições, representou a única descolonização portuguesa feita 'como devia ter sido' em 1974-75, corrigindo simbolicamente os erros do processo precipitado que abandonou populações a guerras civis e ocupações.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares percorrem cerca de cinco séculos de história para contextualizar o massacre do cemitério de Santa Cruz, ocorrido em Dili a 12 de novembro de 1991, trinta anos antes da gravação. O ponto de partida é uma pergunta dupla dos ouvintes: o que motivou a invasão indonésia de Timor-Leste em 1975 e por que razão a presença portuguesa na ilha resistiu tanto tempo, quando Portugal foi progressivamente perdendo a sua posição no Índico?
Os apresentadores recuam ao século XVI para explicar que a chegada dos portugueses a Timor não constituiu, desde o início, uma ocupação colonial propriamente dita. Tratava-se de uma presença diminuta - dezenas de homens, por vezes agindo por iniciativa própria - num arquipélago de dezenas de milhares de ilhas, onde Timor interessava sobretudo pela madeira de sândalo e como ponto de passagem entre Malaca e as ilhas das Molucas. O que verdadeiramente enraizou a presença portuguesa foi a missionação dominicana, que a partir de meados do século XVI foi convertendo populações locais ao catolicismo, criando aquilo que os holandeses, quando chegaram, designaram de "portugueses negros". A administração efetiva de Lisboa só se impôs na prática com as campanhas militares de 1911-1912, e mesmo assim dependeu sobretudo de aliados timorenses. A divisão entre Timor português e Timor holandês foi formalizada pelo Tratado de 1859, que também consagrou a venda das ilhas de Solor e Flores por um governador local sem recursos financeiros - o único caso na história contemporânea em que Portugal alienou possessões ultramarinas.
Com o 25 de Abril de 1974, Portugal reconheceu o direito à autodeterminação dos povos sob a sua administração, mas a transição em Timor degenerou rapidamente. Os partidos que emergiram - a conservadora UDT, a pró-integração Apodeti e a marxista-leninista Fretilin, esta última apoiada pelos oficiais do MFA - entraram em guerra civil. As autoridades portuguesas optaram por abandonar o território, e a Fretilin declarou unilateralmente a independência. A 7 de dezembro de 1975, a Indonésia invadiu com o beneplácito dos Estados Unidos e da Austrália, que temiam a criação de uma espécie de Cuba no Sudeste Asiático. A resistência timorense, favorecida pelo terreno montanhoso, prolongou-se até 1978-79, mas a repressão indonésia foi brutal: calcula-se que cerca de um sexto da população - aproximadamente 116 mil pessoas - terá morrido direta ou indiretamente em consequência da ocupação.
Um efeito paradoxal da ocupação foi o crescimento explosivo do catolicismo: de cerca de 20% da população em 1975, os católicos passaram a representar quase 98% quinze anos depois. A religião tornou-se, à semelhança do que aconteceu na Irlanda sob domínio britânico, o cimento de uma identidade coletiva de resistência. Portugal, embora sem presença física no território desde 1975, nunca reconheceu a anexação indonésia, manteve a tutela diplomática reconhecida pelas Nações Unidas e usou a sua entrada na CEE em 1986 para dificultar acordos comerciais e de armamento com Jacarta.
O massacre de Santa Cruz surge neste contexto como um acelerador decisivo. No funeral de um ativista da resistência, as forças indonésias abriram fogo sobre uma multidão desarmada, matando entre 200 e 300 pessoas - muito acima dos 19 mortos que Jacarta reconheceu. O acontecimento foi filmado pelo jornalista Max Stahl, e as imagens, divulgadas a partir de janeiro de 1992 em televisões de todo o mundo, transformaram Timor numa causa de direitos humanos de alcance global. Em 1996, o Prémio Nobel da Paz atribuído ao bispo de Dili, D. Carlos Ximenes Belo, e a José Ramos-Horta consolidou essa visibilidade. A queda do ditador Suharto em 1998, na esteira da crise financeira asiática, abriu caminho ao referendo de agosto de 1999, em que quase 80% dos timorenses votaram pela independência. Seguiu-se uma campanha de destruição e violência pelo exército indonésio, travada por uma intervenção internacional liderada pela Austrália, até à independência formal em 2002. Os apresentadores concluem que Timor
Personagens
- Max Stahl
- Vasco da Gama
- Lopes Lima
- João Paulo II
- Suharto
- Carlos Ximenes Belo
- José Ramos Horta
- Noam Chomsky
- Salazar
- Melo Antunes
Lugares/Países
- Portugal
- Timor-Leste
- Indonésia
- Holanda
- Índia
- Austrália
- Estados Unidos
- China
- Macau
- Goa
- Malaca
- Malásia
- Molucas
- Malucco
- Solor
- Flores
- Papua Nova Guiné
- Java
- Sumatra
- Angola
- Moçambique
- Guiné
- Brasil
- Japão
- Dinamarca
- Filipinas
- Vietname do Norte
- Vietname do Sul
- Hong Kong
- Grã-Bretanha
- Jakarta
- Dili
- Lisboa
Épocas
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Estado Novo
- 25 de Abril
- Guerra Fria
- Segunda Guerra Mundial
- anos 50
- anos 60
- anos 90
- descolonização
Temas
- colonialismo
- missionação
- religião
- catolicismo
- expansão portuguesa
- comércio de especiarias
- ocupação militar
- resistência
- independência
- direitos humanos
- genocídio
- autodeterminação
- guerra civil
- diplomacia internacional
- identidade nacional
Eventos
- Massacre de Santa Cruz
- Invasão de Timor pela Indonésia
- Revolução de 25 de Abril
- Referendo de Timor-Leste 1999
- Independência de Timor-Leste 2002
- Ocupação de Goa pela Índia 1961
- Visita de João Paulo II a Timor 1989
- Prémio Nobel da Paz 1996
Guerras e conflitos
- Guerra Civil Timorense 1975
- Ocupação indonésia de Timor-Leste 1975-1999
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Colonial Portuguesa
- Guerra Fria