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Nº 28127 de novembro de 202452:25análise histórica

Todas as descolonizações correram mal. Porquê?

Análise das descolonizações africanas, com foco nos casos português (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau) e em contexto continental. Rui Ramos argumenta que tanto as colonizações como as descolonizações falharam em África subsaariana, devido à menorização das populações locais pelos colonizadores europeus e depois pelos próprios movimentos anticolonialistas, que reproduziram métodos autoritários e adoptaram modelos soviéticos de partido único e estatização.

Ideias principais

  1. A colonização europeia de África foi tardia (fim do século XIX) e assentou num paradoxo: propunha-se desenvolver e civilizar as populações mas tratava-as como inferiores e menores, estabelecendo trabalho forçado e administrações racialistas.
  2. A Conferência de Berlim (1884-1885) não foi apenas uma partilha territorial mas um compromisso das potências europeias para integrar África no comércio mundial, acabar com a escravatura e criar instituições modernas - objectivos que nunca foram alcançados.
  3. As descolonizações africanas falharam independentemente do método usado (referendo, eleições, trespasse directo) porque os novos líderes anticolonialistas olharam para as populações locais da mesma forma que os colonizadores: como sujeitos passivos que precisavam de tutela.
  4. A adopção generalizada do modelo soviético (ditadura de partido único e estatização) pelos novos Estados africanos nos anos 1960-70 permitiu controlo total sobre as sociedades mas destruiu as possibilidades de desenvolvimento, com expulsão de classes médias (em Moçambique, europeus e indianos) e restauração de trabalho forçado.
  5. Entre 1950 e 2022 houve 242 golpes de Estado bem-sucedidos no mundo, dos quais 106 foram em África, revelando a instabilidade estrutural dos novos Estados, agravada por guerras civis mais violentas que as guerras de independência (em Angola, exército cubano com 50 mil homens em 1988).

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de um dado contemporâneo - a violência política em Moçambique após as eleições recentes - para formular uma pergunta mais ampla: foram os portugueses especialmente incompetentes a descolonizar, ou as descolonizações africanas falharam de forma generalizada? A resposta de Rui Ramos é imediata e clara: as duas coisas são verdadeiras em simultâneo. Portugal foi mau a descolonizar e as descolonizações africanas falharam em todo o lado, independentemente da forma que assumiram. O episódio concentra-se na África subsaariana, excluindo deliberadamente o norte de África e comparando, a título de contraste, com casos asiáticos como Singapura, que demonstram que a descolonização não conduziu necessariamente ao fracasso.

Para explicar esse fracasso, os apresentadores recuam à colonização europeia de África, que foi um fenómeno essencialmente tardio, do fim do século XIX, ao contrário do que sucedeu na Ásia ou nas Américas. A Conferência de Berlim de 1884-1885 não foi apenas uma partilha territorial entre potências europeias, mas também um compromisso formal com objetivos declarados de desenvolvimento: integrar África no comércio mundial, construir infraestruturas, abolir a escravatura interna e implantar instituições de tipo ocidental. O problema, argumenta Rui Ramos, reside numa contradição estrutural: o projeto colonizador pretendia elevar as populações africanas, mas assentava simultaneamente na sua menorização - tratando-as como incapazes de se governar, submetendo-as a trabalho forçado, impondo culturas obrigatórias e enformando-as numa visão racialista da humanidade que as colocava sob tutela indefinida. Esta contradição sabotou os próprios objetivos benignos da colonização e criou uma população híbrida - aculturada, muitas vezes convertida ao cristianismo, falante de línguas europeias - mas sem estatuto de igualdade perante o colonizador.

É precisamente esta população aculturada que, após a Segunda Guerra Mundial, lidera os movimentos anticolonialistas. Num contexto internacional favorável - os Estados Unidos e a União Soviética eram ambos potências anticoloniais - estes grupos assumem o poder nos novos Estados independentes, estabelecidos nas fronteiras artificiais traçadas pelos europeus. O problema, sublinham os apresentadores, é que estes novos líderes replicaram internamente a mesma lógica de tutela que criticavam nos colonizadores: olharam para o resto da população como sujeitos passivos a conduzir, e não como cidadãos com plena maioridade cívica. Muitos adotaram o modelo soviético - ditadura de partido único e estatização da economia -, que era então visto como receita eficaz de desenvolvimento rápido, e que servia igualmente para consolidar o domínio sobre sociedades enormes e etnicamente diversas. Em Moçambique, a Frelimo chegou a restaurar práticas similares ao trabalho forçado e às relocalizações forçadas de populações que os próprios portugueses tinham usado e que Portugal já abolira em 1961.

A instabilidade que se seguiu foi devastadora. Os novos Estados africanos tornaram-se o epicentro mundial dos golpes de Estado: entre 1950 e 2022, de 242 golpes bem-sucedidos registados no mundo, 106 ocorreram em África. As elites no poder organizaram-se em torno de lealdades étnicas ou partidárias e dedicaram-se sobretudo à extração de rendas de recursos naturais - petróleo em Angola e Nigéria, cobre no Zaire -, num ambiente de insegurança jurídica que inviabilizava qualquer investimento produtivo de longo prazo. O exemplo da Guerra Civil da Nigéria, entre 1967 e 1970, com dois milhões de mortos civis, ilustra como a exclusão de grupos étnicos - neste caso os Igbo - gerou imediatamente conflitos armados de grande escala. Em Angola e Moçambique, as guerras civis pós-descolonização foram muito mais violentas e prolongadas do que as próprias guerras de independência contra Portugal.

Os apresentadores concluem que tanto a colonização como a descolonização falharam nos seus objetivos, e que esse duplo fracasso resulta de uma lógica de tutela que nunca reconheceu verdadeiramente a capacidade de auto-governo das populações africanas. Deixam, porém, uma nota de prudência histórica: a Europa do século XX era, em meados desse século, um continente destroçado por duas guerras mundiais, e conseguiu reconstituir-se. O tempo po

Personagens

  • Salazar
  • Gungunhana
  • Mouzinho de Albuquerque
  • Stalin

Lugares/Países

  • Moçambique
  • Angola
  • Guiné-Bissau
  • Portugal
  • África subsaariana
  • Singapura
  • Índia
  • Estados Unidos
  • União Soviética
  • Inglaterra
  • França
  • Alemanha
  • Nigéria
  • Zaire
  • Rodésia
  • África do Sul
  • Cuba
  • China
  • Canadá
  • Austrália
  • Nova Zelândia
  • Europa
  • Américas
  • Ásia
  • Quénia
  • Uganda

Épocas

  • século XV
  • século XVI
  • século XIX
  • século XX
  • fim do século XIX
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • anos 1950
  • anos 1960
  • anos 1970
  • anos 1980
  • anos 1990
  • Estado Novo

Temas

  • colonialismo
  • descolonização
  • imperialismo
  • guerra colonial
  • ditadura
  • democracia
  • escravatura
  • comércio de escravos
  • desenvolvimento económico
  • trabalho forçado
  • golpes de Estado
  • guerra civil
  • nacionalismo
  • racialismo
  • missionação
  • cristianismo
  • islão
  • estatização
  • economia de mercado
  • corrupção
  • fraude eleitoral
  • instabilidade política

Eventos

  • Conferência de Berlim
  • 25 de Abril de 1974
  • partilha de África

Guerras e conflitos

  • guerra colonial
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Guerra Civil da Nigéria
  • guerra do Biafra
  • guerras civis em Angola e Moçambique