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Nº 30407 de maio de 202538:38análise histórica

Trabalhos forçados e morte na Ferrovia da Birmânia

Episódio sobre a construção da Ferrovia da Birmânia durante a Segunda Guerra Mundial (1940-1943), onde o exército japonês mobilizou 100 mil prisioneiros de guerra aliados e 250 mil civis para construir mais de 400 quilómetros de caminho-de-ferro. O tratamento brutal resultou em cerca de 90 mil mortos civis e 12 mil prisioneiros aliados, sendo um dos piores casos de maus-tratos a prisioneiros ocidentais na guerra. A discussão explora as razões do desconhecimento desta frente asiática da guerra, a ética militar japonesa versus ocidental, e o impacto cultural através do cinema, especialmente o filme de David Lean de 1957.

Ideias principais

  1. A guerra no Sudeste Asiático é muito menos conhecida que a europeia porque envolveu principalmente populações locais (chineses, indianos, birmaneses, japoneses) e não europeus ou americanos.
  2. Os japoneses trataram brutalmente os prisioneiros aliados devido à sua ética militar tradicional que considerava a rendição profundamente desonrosa, ao contrário da tradição ocidental de rendição honrosa.
  3. Cerca de 30% dos prisioneiros de guerra ocidentais nas mãos japonesas morreram, comparável aos campos nazis, enquanto os alemães respeitavam as convenções de Genebra com prisioneiros ocidentais mas não com soviéticos.
  4. A maioria da população indiana e birmanesa optou por apoiar os britânicos contra os japoneses, considerando o imperialismo japonês pior que o europeu, apesar dos movimentos independentistas ativos.
  5. O filme 'A Ponte do Rio Kwai' de 1957 foi um enorme sucesso porque correspondeu ao crescente cepticismo pós-imperial do público ocidental em relação às suas elites, apresentando a construção da ponte como metáfora do absurdo imperial.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre a chamada Ferrovia da Morte, o caminho de ferro construído durante a Segunda Guerra Mundial pelo exército japonês com recurso a trabalho forçado de prisioneiros de guerra aliados e de trabalhadores civis recrutados à força, ligando Bangkok a Rangum através das selvas da Tailândia e da Birmânia. A conversa parte de dois pretextos culturais - o célebre filme de David Lean, A Ponte do Rio Quai, de 1957, e uma nova série televisiva que adapta o romance premiado de Richard Flanagan - para explorar um capítulo da Segunda Guerra Mundial que permanece muito menos conhecido do que os palcos europeus ou mesmo o Pacífico.

Rui Ramos começa por explicar essa assimetria de conhecimento: a guerra na Ásia Oriental e no Sudeste Asiático envolveu sobretudo populações locais - chineses, indianos, japoneses, birmaneses - e relativamente poucos europeus ou americanos, o que reduziu o interesse do público ocidental. A guerra na Birmânia é, assim, uma das frentes mais esquecidas do conflito mundial, apesar dos números envolvidos serem muito significativos.

O episódio contextualiza a fulminante expansão japonesa a partir de dezembro de 1941, quando, aproveitando o efeito de surpresa e a superioridade de meios militares modernos, o Japão conquistou Hong Kong, Singapura, a Malásia, as Índias Orientais Holandesas e a Birmânia, fazendo cerca de 350 mil prisioneiros, dos quais aproximadamente 132 mil eram ocidentais. Os apresentadores explicam que os objetivos japoneses na Birmânia eram dois: subverter o domínio britânico na Índia, aproveitando o movimento independentista liderado por Gandhi, e cortar as linhas de abastecimento terrestres entre a Índia e os nacionalistas chineses que combatiam o Japão desde 1937. A ferrovia tornava-se ainda mais estratégica após a derrota japonesa em Midway, em 1942, que fragilizou as comunicações marítimas nipónicas.

A construção da ferrovia mobilizou cerca de 100 mil prisioneiros de guerra aliados e aproximadamente 250 mil trabalhadores civis recrutados à força, maioritariamente da Malásia. Morreram cerca de 90 mil civis e 12 mil prisioneiros aliados, numa proporção de mortalidade que chegou a 30% entre os ocidentais capturados pelos japoneses. Rui Ramos explica este tratamento brutal pela ética militar japonesa, que considerava a rendição uma desonra absoluta, ao contrário da tradição ocidental, que desde a Idade Média reconhecia a rendição honrosa após combate até ao limite das forças. Esse desprezo pelos prisioneiros distinguia o comportamento japonês do alemão: enquanto os nazis tratavam os prisioneiros soviéticos com enorme crueldade mas respeitavam geralmente as convenções de Genebra com os aliados ocidentais, os japoneses submeteram sistematicamente os prisioneiros aliados a trabalhos esgotantes, alimentação deficiente, falta de assistência médica e marchas forçadas em ambiente tropical.

Os apresentadores abordam ainda a dimensão política da guerra na Birmânia, nomeadamente a colaboração de alguns líderes independentistas indianos com o Japão e com a Alemanha Nazi, colaboração que se tornaria embaraçante no pós-guerra. Sublinham também um dado paradoxal: apesar do discurso japonês de libertação da Ásia do imperialismo europeu, a maioria dos indianos e birmaneses preferiu ficar do lado britânico, considerando o imperialismo japonês muito mais brutal. Em 1945, o próprio exército birmanês constituído pelos japoneses acabou por se voltar contra eles.

Personagens

  • David Lean
  • Richard Flanagan
  • Pierre Boulle
  • Gandhi
  • Hitler
  • Steven Spielberg
  • Nagisa Oshima
  • Charles de Gaulle
  • Nasser

Lugares/Países

  • Japão
  • Tailândia
  • Birmânia
  • Reino Unido
  • Estados Unidos
  • Austrália
  • Nova Zelândia
  • China
  • Índia
  • Alemanha
  • Rússia
  • França
  • Filipinas
  • Indonésia
  • Hong Kong
  • Singapura
  • Malásia
  • Paquistão
  • Bangladesh
  • Quénia
  • Uganda
  • Nigéria
  • Vietnã
  • Laos
  • Camboja
  • Egito
  • Europa
  • África
  • Norte de África
  • Sudeste Asiático
  • Pacífico

Épocas

  • Segunda Guerra Mundial
  • Anos 1940
  • Anos 1950
  • Anos 1970
  • Anos 1980
  • Idade Média
  • Antiguidade

Temas

  • guerra
  • prisioneiros de guerra
  • trabalhos forçados
  • imperialismo
  • colonialismo
  • independência
  • direitos humanos
  • convenções de Genebra
  • cinema
  • literatura
  • brutalidade militar
  • ética militar
  • doenças tropicais
  • engenharia militar

Eventos

  • Ataque a Pearl Harbor
  • Batalha de Midway
  • Invasão da Birmânia
  • Movimento Quit India
  • Crise do Suez
  • Independência da Índia
  • Bombardeamento de Darwin

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra no Pacífico
  • Guerra na China
  • Guerra na Birmânia
  • Guerra Civil Chinesa

Livros citados

  • A Senda Estreita para o Norte Profundo
  • The Narrow Road to the Deep North
  • A Ponte do Rio Kwai
  • Planeta dos Macacos