Nº 31125 de junho de 202540:09resposta a ouvintes
Três grandes mulheres da História de Portugal
Rui Ramos apresenta três grandes mulheres da História de Portugal, ilustrando os principais caminhos através dos quais as mulheres exerceram poder e influência pública: D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, que pela via régia procurou autonomia política no Noroeste Peninsular; Madre Brígida de Santo António, freira do século XVII que pela via religiosa se tornou conselheira influente da corte de D. João IV; e Maria Amália Vaz de Carvalho, escritora do século XIX que pela via intelectual alcançou reconhecimento como autoridade na educação feminina e primeira mulher sócia da Academia das Ciências.
Ideias principais
- Apesar das limitações jurídicas, as mulheres exerceram influência pública significativa através de três vias principais: herança de poder aristocrático/régio, autoridade religiosa em conventos e misticismo, e prestígio intelectual através das letras e artes.
- D. Teresa não lutou pela independência do Condado Portucalense mas sim pela autonomia do Reino da Galiza, sendo D. Afonso Henriques quem inverteu essa aspiração maternal e criou Portugal ao sul do Minho, usando paradoxalmente a própria ascendência régia herdada da mãe.
- A religião católica, apesar de excluir mulheres do sacerdócio, permitiu-lhes aceder a posições de grande influência como madres superioras e conselheiras espirituais, sendo Madre Brígida no século XVII tão consultada pela elite que rivalizava em autoridade com qualquer homem da corte.
- Luísa Antónia de Velasco, condessa de Castelo Novo, assumiu o comando militar da fortaleza de Mazagão em 1640 após a morte do marido numa emboscada, dirigindo com 'ânimo varonil' a defesa contra o cerco mouro e salvando a praça portuguesa em África.
- Maria Amália Vaz de Carvalho representou a emergência da mulher intelectual profissional no século XIX, defendendo publicamente que a grande mudança social da época exigia uma nova educação feminina preparada para a autonomia, já que 'o casamento deixou de ser a condição normal da vida da mulher'.
Resumo do episódio
Neste episódio de *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem ao desafio de um ouvinte, Carlos Diniz, que, a propósito do Dia Internacional da Mulher, pediu uma reflexão sobre as mulheres mais marcantes da história de Portugal. O ponto de partida é a constatação de que a história política portuguesa, contada através de reis, presidentes e generais, parece à primeira vista uma história quase exclusivamente masculina - mas essa aparência engana. Rui Ramos argumenta que as mulheres exerceram sempre uma influência considerável, seja no espaço doméstico e comunitário, seja, em certas circunstâncias, na própria vida pública, através de três vias distintas: a herança do poder aristocrático ou real, a autoridade conferida pela vida religiosa e, mais recentemente, o prestígio adquirido pelas letras e pelas artes.
O primeiro exemplo escolhido é a rainha Dona Teresa, mãe de Afonso Henriques e figura decisiva nos primórdios da nacionalidade. Filha ilegítima do rei Afonso VI de Leão e Castela, Dona Teresa reclamou para si o título de rainha com base nessa filiação real e, após a morte do marido, o conde Dom Henrique, em 1112, governou o Condado Portucalense de forma autónoma. A sua ambição política era, aliás, maior do que a do filho: pretendia reunir o Noroeste Peninsular sob a sua autoridade, articulando-se com a nobreza galega dos Travas, enquanto Afonso Henriques acabou por optar por uma independência mais circunscrita ao Condado. É através da mãe, sublinha Rui Ramos, que o futuro fundador de Portugal herda a legitimidade régia, tornando Dona Teresa uma figura incontornável do processo que deu origem ao reino. A este exemplo soma-se uma galeria de outras mulheres de poder - Leonor Teles, Dona Luísa de Gusmão, Dona Carlota Joaquina, as rainhas regentes D. Catarina da Áustria e D. Luísa de Gusmão, e as rainhas D. Maria I e D. Maria II -, bem como o caso da condessa viúva de Castelo Novo, Dona Luísa Antónia de Velasco, que em 1640 assumiu o comando militar da praça norteafricana de Mazagão após a morte do marido numa emboscada, dirigindo pessoalmente a defesa da fortaleza contra o cerco muçulmano.
O segundo exemplo situa-se no domínio da influência religiosa. Rui Ramos apresenta a Madre Brígida de Santo António, cujo nome civil era Dona Leonor de Mendanha, nascida em 1576. Contra a vontade da família, que pretendia casá-la dado o seu considerável património, ela ingressou num convento em Lisboa, onde desenvolveu uma reputação de santidade, misticismo e prudência que a tornou uma das personalidades mais consultadas da corte de D. João IV. A rainha Dona Luísa de Gusmão era, segundo o seu biógrafo, uma frequente interlocutora. A Madre Brígida é apresentada como exemplo de um fenómeno mais vasto: a sociedade portuguesa dos séculos XVII e XVIII conheceu muitas mulheres - freiras, beatas, mulheres de virtude - que exerceram, a vários níveis sociais, funções de conselheiras e orientadoras, funcionando como uma espécie de autoridade intelectual e espiritual antes que este papel fosse assumido por outras figuras.
O terceiro exemplo é o da escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, nascida em Lisboa em 1847 e contemporânea da Geração de 70. Começou a afirmar-se nos salões literários ainda adolescente, tornou-se uma das primeiras mulheres a viver profissionalmente da escrita em Portugal e foi, em 1912, uma das primeiras mulheres admitidas na Academia das Ciências de Lisboa. Sem ser sufragista, tornou-se a principal voz pública sobre a educação feminina, defendendo, em obras como *Às Nossas Filhas*, que o mundo tinha mudado irreversivelmente e que as mulheres precisavam de ser preparadas para uma vida autónoma. O episódio conclui com a ideia de que estas três trajetórias - a rainha, a religiosa e a escritora - ilustram como, apesar das restrições jurídicas e sociais de cada época, as mulheres encontraram caminhos para influenciar decisivamente a história de Portugal.
Personagens
- Teresa de Leão
- Afonso Henriques
- Afonso VI de Leão e Castela
- Henrique de Borgonha
- Urraca de Leão e Castela
- Fernão Peres de Trava
- Leonor Teles
- Fernão Lopes
- João I
- Luísa de Gusmão
- João IV
- Carlota Joaquina
- João VI
- Catarina de Áustria
- João III
- Maria I
- José I
- Maria II
- Inês de Castro
- Francisco Mascarenhas
- Luísa Antónia de Velasco
- Madre Brígida de Santo António
- Leonor de Mendanha
- Santa Isabel da Hungria
- Maria Amália Vaz de Carvalho
- Carolina Michaelis de Vasconcelos
- Oliveira Martins
- Antero de Quental
- Duque de Palmela
- Gonçalves Crespo
- José Mattoso
- Luís Carlos Amaral
- Mário Jorge Barroca
- António Caetano de Sousa
- António Dias Farinha
- Frei Agostinho de Santa Maria
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- Leão e Castela
- Galiza
- Hungria
- Inglaterra
- Áustria
- África do Norte
- Borgonha
Épocas
- Idade Média
- século XI
- século XII
- século XIV
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Restauração da Independência
- período filipino
- geração de 70
Temas
- mulheres na história
- poder político feminino
- monarquia
- religião
- catolicismo
- aristocracia
- vida conventual
- misticismo
- literatura
- educação feminina
- independência de Portugal
- guerra
- fortalezas portuguesas
- África portuguesa
- culto mariano
- Fátima
- sociedade rural
- imprensa
- vida intelectual
Eventos
- Batalha de Alcácer Quibir
- Revolta da Maria da Fonte
- Restauração de 1640
- cerco de Mazagão
- aparições de Fátima
Guerras e conflitos
- cerco de Mazagão (1640)
Livros citados
- Os Lusíadas
- Crónica de D. João I (Fernão Lopes)
- biografia de D. Afonso Henriques (José Mattoso, 2006)
- biografia de D. Teresa (Luís Carlos Amaral e Mário Jorge Barroca, 2012)
- História de Mazagão (António Dias Farinha)
- História da Vida Admirável e das Ações Prodigiosas da Venerável Madre Soror Brígida de Santo António (Frei Agostinho de Santa Maria, 1701)
- História Genealógica (António Caetano de Sousa)
- Mulheres e Crianças (Maria Amália Vaz de Carvalho, 1880)
- Cartas à Luísa (Maria Amália Vaz de Carvalho, 1886)
- Aos Nossas Filhas (Maria Amália Vaz de Carvalho, 1906)
- biografia do Duque de Palmela (Maria Amália Vaz de Carvalho, 1898)