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01 de setembro de 202643:26resposta a ouvintes

Três revoluções tecnológicas que mudaram o mundo

O episódio analisa três grandes revoluções tecnológicas dos últimos 200 anos que transformaram radicalmente a sociedade: a combinação do caminho de ferro, barco a vapor e telégrafo (1820-1860), a eletrificação (fim do século XIX-início do XX), e os microprocessadores (década de 1970). Rui Ramos contextualiza cada revolução mostrando o seu impacto na vida quotidiana, economia, e nas relações globais, com exemplos concretos em Portugal e no mundo.

Ideias principais

  1. O caminho de ferro reduziu a viagem Lisboa-Porto de 8 dias para 8 horas, revolucionando transportes, enquanto o telégrafo elétrico reduziu comunicações transatlânticas de 3-4 meses para minutos, criando pela primeira vez um mundo verdadeiramente interligado.
  2. A eletrificação não só transformou a iluminação e os transportes urbanos, mas permitiu a refrigeração e os eletrodomésticos, alterando radicalmente a forma como as pessoas guardavam e consumiam alimentos, sendo vista por Lenin como essencial ao comunismo ('sovietes mais eletricidade').
  3. A miniaturização dos computadores através dos microprocessadores (1971) permitiu passar de máquinas de 30 toneladas que custavam meio milhão de dólares para dispositivos de bolso, tornando possível que 5 dos 8 mil milhões de pessoas no mundo usem hoje a internet.
  4. Todas estas revoluções foram imediatamente reconhecidas como transformadoras pelos contemporâneos, gerando enormes investimentos públicos e privados comparáveis ao entusiasmo atual pela inteligência artificial, criando verdadeiras 'manias' como a mania dos caminhos de ferro em meados do século XIX.
  5. Em Portugal, os caminhos de ferro justificaram o grande endividamento externo na segunda metade do século XIX, enquanto a industrialização dos anos 1940-50 assentou nas grandes centrais hidroelétricas da Lei de Eletrificação de 1944, mostrando como estas tecnologias moldaram a modernização do país.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma pergunta de um ouvinte sobre a inteligência artificial para reflectir, numa perspectiva histórica, sobre as grandes revoluções tecnológicas dos últimos dois séculos. A questão de fundo é saber se existem precedentes históricos para o tipo de transformação que a IA promete provocar e se as pessoas das épocas anteriores foram capazes de reconhecer, em tempo real, que estavam perante mudanças civilizacionais. Para tornar a escolha rigorosa e não arbitrária, Rui Ramos estabelece três critérios: as tecnologias seleccionadas devem ter afectado a vida das pessoas em geral e não apenas um sector específico; devem ter arrastado consigo grandes investimentos e gerado expectativas imediatas; e devem ter criado uma ruptura tão nítida que se torne difícil imaginar como era o mundo antes delas.

A primeira revolução identificada, situada entre a década de 1820 e meados do século XIX, é na verdade um conjunto de três inovações intimamente relacionadas: o caminho de ferro, o barco a vapor e o telégrafo eléctrico. Os apresentadores sublinham o impacto concreto do caminho de ferro em Portugal, onde a viagem entre Lisboa e o Porto passou de oito dias para oito horas. No mar, a travessia do Atlântico entre Londres e Nova Iorque, que à vela demorava entre quarenta a cinquenta dias, foi reduzida para quinze dias com os primeiros paquetes a vapor em 1838, e para cinco a oito dias em 1900. O telégrafo, por seu lado, comprimiu as comunicações de meses para minutos: uma resposta que em 1776 poderia demorar três a quatro meses a atravessar o Atlântico passou, após o lançamento do primeiro cabo submarino em 1866, a chegar em instantes. Rui Ramos realça que esta revolução transformou a diplomacia, os mercados financeiros e o comércio internacional, permitindo pela primeira vez uma integração económica e informativa à escala planetária — de tal modo que um livro da época sobre o telégrafo foi precisamente intitulado «A internet do século XIX».

A segunda grande revolução é a electrificação. Rui Ramos traça o percurso desde a invenção da lâmpada incandescente por Thomas Edison em 1879 até à construção das primeiras centrais geradoras nos Estados Unidos em 1882 e à posterior expansão das redes de distribuição. Em Portugal, a Central Tejo foi inaugurada entre 1908 e 1914, e os eléctricos chegaram a Lisboa em 1901. Os apresentadores destacam as consequências práticas desta revolução: a substituição das velas e do gás, a electrificação dos transportes urbanos, o surgimento dos electrodomésticos e, em particular, do frigorífico, que alterou radicalmente os hábitos alimentares. A eletricidade tornou-se o símbolo da modernidade, ao ponto de Lenin ter definido o comunismo como «os sovietes mais a electricidade», e em Portugal o arranque industrial das décadas de 1940 e 1950 assentou precisamente na construção das grandes barragens hidroeléctricas previstas na Lei de Electrificação de 1944.

A terceira revolução é a dos microprocessadores, iniciada em 1971 quando a empresa Intel conseguiu integrar uma unidade de processamento num chip de silício. Rui Ramos contextualiza a mudança de escala: os primeiros computadores, em 1945, pesavam trinta toneladas e ocupavam um salão inteiro; em 1956, o modelo mais compacto então existente pesava 360 quilos e custava o equivalente a meio milhão de euros actuais. A miniaturização tornou possível os computadores pessoais, os telemóveis inteligentes e a utilização massiva da internet, usada hoje por cinco mil milhões de pessoas. Os apresentadores concluem que esta revolução, ainda em curso, é a que abre caminho à inteligência artificial, e que as empresas que exploram o mundo digital se tornaram entretanto as maiores do planeta, reproduzindo a dinâmica de atracção de capitais que já caracterizara as anteriores revoluções. A lição histórica implícita no episódio é clara: as grandes transformações tecnológicas foram sempre reconhecidas pelos contemporâneos, geraram sempre entusiasmo e especulação financeira, e deixaram sempre um antes e um depois inconfundíveis.

Personagens

  • Thomas Edison
  • Samuel Morse
  • Guglielmo Marconi
  • Alexander Fleming
  • Lenin
  • Karl Marx
  • D. Carlos I
  • Camilo Castelo Branco
  • Abraham Lincoln

Lugares/Países

  • Portugal
  • Inglaterra
  • Reino Unido
  • Estados Unidos
  • América do Norte
  • América do Sul
  • África
  • Rússia
  • União Soviética
  • Europa
  • Londres
  • Nova Iorque
  • Lisboa
  • Porto
  • Cascais
  • Chiado

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • século XVIII
  • Revolução Industrial
  • década de 1820
  • década de 1830
  • década de 1840
  • década de 1850
  • década de 1860
  • década de 1870
  • década de 1880
  • década de 1890
  • década de 1900
  • década de 1910
  • década de 1920
  • década de 1930
  • década de 1940
  • década de 1950
  • década de 1960
  • década de 1970
  • década de 1980
  • década de 1990
  • década de 2000
  • Segunda Guerra Mundial

Temas

  • tecnologia
  • revolução industrial
  • transportes
  • comunicações
  • economia
  • industrialização
  • eletrificação
  • energia
  • modernização
  • globalização
  • medicina
  • agricultura
  • revolução digital
  • engenharia
  • diplomacia
  • comércio

Eventos

  • Revolução Industrial
  • Revolução Soviética
  • independência dos Estados Unidos
  • construção da Ponte Dona Maria Pia
  • inauguração da Central Tejo

Livros citados

  • A internet do século XIX