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Nº 35819 de maio de 202651:33resposta a ouvintes

Trianon: o tratado que humilhou a Hungria em 1920

O Tratado de Trianon de 1920 reduziu a Hungria a um terço do seu território, deixando milhões de húngaros fora das novas fronteiras e criando um profundo trauma nacional. Rui Ramos explora a história húngara desde a instalação dos magiares na Bacia dos Cárpatos até à ocupação otomana, o domínio dos Habsburgos, a monarquia dual austro-húngara, e as sucessivas perdas territoriais após ambas as guerras mundiais. O episódio demonstra como esta memória histórica alimenta o nacionalismo húngaro contemporâneo e explica a singularidade política da Hungria na União Europeia.

Ideias principais

  1. O Tratado de Trianon reduziu a Hungria de 282 mil para 93 mil km² e deixou 3,4 milhões de húngaros (30% da população magiar) sob governos estrangeiros, principalmente na Roménia.
  2. A história húngara é marcada por três grandes traumas: a ocupação otomana de 150 anos (1526-1699), o domínio dos Habsburgos, e a destruição do reino após a Primeira Guerra Mundial.
  3. Os húngaros são um povo magiar de origem asiática com uma língua aglutinante única na Europa, sem parentesco com as línguas indo-europeias vizinhas, apenas remotamente aparentada ao finlandês.
  4. Na Europa Oriental, ao contrário da Ocidental, as diferenças sociais correspondiam a diferenças nacionais: na Hungria a nobreza era magiar, os trabalhadores eram eslavos e romanos, e os comerciantes eram alemães e judeus.
  5. O nacionalismo húngaro moderno alimenta-se de uma cultura de vitimização histórica, explicando o apelo de programas nacionalistas e a singularidade da Hungria na União Europeia, onde partidos nacionalistas competem exclusivamente entre si.

Resumo do episódio

O episódio parte de uma pergunta enviada por um ouvinte, André Pereira, sobre o Tratado de Trianon de 1920, descrito como o "parente pobre" da historiografia da Primeira Guerra Mundial no Ocidente. A questão de fundo é perceber por que razão este tratado, praticamente desconhecido fora da Hungria, moldou tão profundamente a identidade nacional húngara e continua a alimentar o nacionalismo político até aos dias de hoje.

Para contextualizar o tratado, Rui Ramos recua às origens dos magiares, povo nómada oriundo das estepes asiáticas que se instalou na Bacia dos Cárpatos no século IX, fundou o Reino da Hungria no ano 1000 com Santo Estevão e desenvolveu uma língua radicalmente diferente das línguas indo-europeias envolventes. Este reino prosperou durante séculos até sofrer o primeiro grande trauma: a derrota catastrófica na Batalha de Mohács em 1526 frente ao exército otomano de Solimão o Magnífico, seguida de cerca de 150 anos de dominação muçulmana que terá reduzido drasticamente a população do território. A reconquista foi obra dos Habsburgos, que a partir de 1683 expulsaram os otomanos, mas isso originou um segundo trauma: a submissão a um poder imperial estrangeiro, católico e centrado em Viena, que governou a Hungria durante dois séculos, esmagando inclusivamente a revolução nacionalista de 1848-1849 com a ajuda militar russa. O compromisso de 1867, que criou a monarquia dual austro-húngara com dois governos equiparados ligados apenas pela política externa e de defesa, representou um equilíbrio frágil mas reconhecido.

O episódio explica também a complexidade étnica do antigo reino da Hungria, cujo território abrangia regiões que hoje pertencem a oito países diferentes. Os magiares eram, na prática, sobretudo a classe nobre, enquanto as populações trabalhadoras eram eslovacos, ucranianos, romenos e outros eslavos, atraídos para a planície pelos próprios Habsburgos no século XVIII para repovoar o território devastado. Esta mistura tornava impossível traçar fronteiras étnicas limpas no fim da guerra.

Com a derrota em 1918 e a desintegração da monarquia austro-húngara, a nova República da Hungria tentou manter-se como estado federal e apelou à imparcialidade norte-americana. Contudo, os aliados impuseram o Tratado de Trianon em junho de 1920, não como resultado de negociação mas como ditado punitivo. A Hungria perdeu dois terços do seu território, metade das suas maiores cidades, todas as minas, 40% da terra arável e metade da indústria. O golpe mais doloroso foi que 3,4 milhões de húngaros, cerca de 30% da população magiar, ficaram sujeitos a governos estrangeiros, sobretudo na Roménia, na Checoslováquia e na Jugoslávia. O país passou a ser governado pelo Almirante Horthy, numa situação que os contemporâneos achavam caricata: um reino sem rei, dirigido por um almirante sem marinha.

Os anos 1930 e 1940 foram marcados pela tentativa de reverter Trianon em aliança com a Alemanha nazi, que efectivamente devolveu à Hungria partes significativas dos territórios perdidos. Quando a guerra virou, a Hungria perdeu tudo outra vez e ficou sob ocupação soviética, que culminou na brutal repressão da revolta popular de 1956. Mais de 200 mil húngaros emigraram para o Ocidente, criando uma vasta diáspora que hoje representa quase metade dos húngaros no mundo.

Personagens

  • Viktor Orban
  • Suleimão o Magnífico
  • Santo Estevão
  • Duque de Lorraine
  • Almirante Horthy
  • Hitler
  • Stalin
  • Woodrow Wilson
  • Felipe II

Lugares/Países

  • Hungria
  • Áustria
  • Império Otomano
  • Alemanha
  • Bulgária
  • Roménia
  • Checoslováquia
  • Eslováquia
  • Polónia
  • Croácia
  • Eslovénia
  • Sérvia
  • Jugoslávia
  • Ucrânia
  • Transilvânia
  • Rússia
  • União Soviética
  • França
  • Inglaterra
  • Estados Unidos
  • Itália
  • Grécia
  • Turquia
  • Irlanda

Épocas

  • Primeira Guerra Mundial
  • Alta Idade Média
  • século IX
  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • anos 1920
  • anos 1930
  • Segunda Guerra Mundial

Temas

  • tratados de paz
  • nacionalismo
  • identidade nacional
  • imperialismo
  • diplomacia
  • guerra
  • ocupação militar
  • vitimização histórica
  • perda territorial
  • minorias nacionais
  • irredentismo
  • ditadura
  • comunismo
  • revolução
  • migração
  • antissemitismo
  • Holocausto

Eventos

  • Tratado de Trianon
  • Tratado de Versalhes
  • Tratado de Saint-Germain-en-Laye
  • Tratado de Neuilly-sur-Seine
  • Tratado de Sèvres
  • Batalha de Mohács
  • Grande Cruzada de 1683-1699
  • Cerco de Viena
  • Segunda Batalha de Mohács
  • Revolução de 1848
  • Primavera dos Povos
  • Compromisso Austro-Húngaro de 1867
  • Cerco de Budapeste
  • Revolta de Budapeste de 1956

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • guerras otomanas
  • Guerra Civil Húngara de 1919