Nº 35712 de maio de 202635:44resposta a ouvintes
Ucrânia, 1986: o desastre nuclear de Chernobyl
O episódio analisa o desastre nuclear de Chernobyl de 26 de abril de 1986 e o seu papel na desagregação da União Soviética. Rui Ramos argumenta que o acidente só teve impacto político decisivo devido ao contexto de fracassos tecnológicos e económicos soviéticos dos anos 80 e à presença de Gorbachev, líder reformista que usou o desastre para justificar a Glasnost, mas que também percebeu através dele que o sistema era irreformável.
Ideias principais
- O desastre de Chernobyl teve impacto político devastador não pela gravidade do acidente em si, mas pelo contexto de degradação tecnológica e económica soviética dos anos 80, evidenciada pela derrota militar face a Israel em 1982 e pelos fracassos no Afeganistão.
- A batalha aérea do Vale de Beca em junho de 1982, onde Israel destruiu 86 caças sírios soviéticos sem perder um único avião, revelou que a União Soviética tinha ficado tecnologicamente muito atrás dos Estados Unidos.
- O secretismo do regime soviético, que ocultou sistematicamente acidentes nucleares (incluindo o desastre de Mayak em 1957, só confirmado em 1989), agravou dramaticamente as consequências humanas de Chernobyl ao atrasar evacuações e manter celebrações do 1º de Maio em áreas contaminadas.
- Gorbachev utilizou Chernobyl como argumento para a política de Glasnost e contra o secretismo comunista, mas o acidente também o convenceu de que o sistema estava num «ludaçal» irreformável, acelerando a perda de fé mesmo entre os últimos crentes no comunismo reformado.
- O sistema de terror burocrático soviético, onde funcionários a todos os níveis escondiam problemas por medo de punição, criou uma cultura de mentira institucionalizada que impediu tanto a prevenção do acidente como uma resposta adequada quando este ocorreu.
Resumo do episódio
O episódio de *E o Resto é História* assinalou o quadragésimo aniversário do desastre de Chernobyl, ocorrido a 26 de abril de 1986, partindo de uma pergunta de um ouvinte sobre a relação entre esse acidente e o colapso da União Soviética. Rui Ramos e João Miguel Tavares não se debruçam sobre os aspectos técnicos da explosão do reactor número 4, mas sim sobre a sua dimensão política: em que medida é que Chernobyl contribuiu para a desintegração do império soviético?
O ponto de partida da análise é o contexto da década de 1980. Em 1980, a União Soviética ainda inspirava temor e respeito: o Sputnik, as baterias de mísseis egípcias que abateram dezenas de aviões israelitas em 1973 e a invasão do Afeganistão pareciam confirmar a vitalidade do bloco soviético, ao mesmo tempo que o Ocidente atravessava crises económicas severas. Contudo, entre 1980 e 1986, esse quadro inverteu-se de forma dramática. A batalha aérea no Vale do Bekaa, em junho de 1982, revelou a inferioridade tecnológica soviética de forma humilhante: Israel destruiu 39 baterias de mísseis e abateu 86 caças sírios de fabrico soviético sem perder um único avião. No Afeganistão, os mísseis antiaéreos fornecidos pelos Estados Unidos à resistência afegã travaram a máquina militar soviética. E o programa da Iniciativa de Defesa Estratégica, lançado por Reagan em 1983, ameaçava eliminar o equilíbrio nuclear que era a última grande arma de paridade soviética. A isso somava-se uma economia estatista incapaz de alimentar a própria população sem importar cereais dos Estados Unidos, enquanto as receitas do petróleo caíam.
É neste contexto de crise acumulada que Mikhail Gorbachev chega ao poder em março de 1985, com 54 anos, numa cúpula dominada por uma gerontocracia em agonia. Gorbachev não pretendia acabar com o comunismo, mas reformá-lo através da perestroika e da glasnost. Rui Ramos descreve um líder cada vez mais ansioso, que já em março de 1986 alertava publicamente para o estado caótico do país e que, numa reunião do Politiburo, perdia a compostura ao tentar defender a iniciativa privada na agricultura.
É precisamente neste momento que explode Chernobyl. Os apresentadores sublinham que a primeira reação das autoridades soviéticas foi, por hábito institucional, esconder tudo. A cidade de Pripyat não foi evacuada de imediato; as evacuações alargaram-se muito lentamente; e só a pressão diplomática sueca, dois dias depois, ao detectar níveis anómalos de radiação, obrigou Moscovo a admitir publicamente o acidente. Este padrão de ocultação não era novo: um acidente nuclear de grau 6 ocorrido nos Montes Urais em 1957 fora completamente abafado durante décadas, com as autoridades a apresentar a área contaminada como uma nova reserva natural. O secretismo era estrutural: como nota Gorbachev nas suas memórias, a mentira não vinha apenas de cima, mas proliferava a todos os níveis do sistema, por medo de punição e de responsabilização.
Chernobyl revelou, assim, a podridão de um sector que era precisamente a joia da coroa soviética. Se o programa nuclear, que concentrava os maiores recursos e os melhores quadros, estava naquele estado - Gorbachev descobriu que haviam ocorrido 105 acidentes nas centrais nucleares nos cinco anos anteriores, todos ocultados -, o que não seria o resto da economia? Para Gorbachev, o desastre funcionou como um argumento adicional a favor da glasnost, mas também como uma revelação perturbadora: o sistema estava a desmoronar-se mais depressa do que qualquer reforma poderia acompanhar. Em junho de 1986, o próprio líder soviético confessava a um assessor que estavam "presos num lamaçal". O episódio conclui com a imagem de Gorbachev, o último crente na possibilidade de reformar o comunismo, a perder definitivamente a fé - e com Chernobyl como o momento em que essa perda se tornou irreversível.
Personagens
- Mikhail Gorbachev
- Joseph Stalin
- Nikita Khrushchev
- Ronald Reagan
- Alexander Yakovlev
- Leonid Brezhnev
- Yuri Andropov
- Konstantin Chernenko
- Vladimir Lenin
- Oleg Gordievski
- William Taubman
- Matthias Rust
Lugares/Países
- Ucrânia
- União Soviética
- Rússia
- Estados Unidos
- Europa
- Suécia
- Japão
- Israel
- Egito
- Síria
- Afeganistão
- Líbano
- Canadá
- Alemanha
Épocas
- século XX
- Guerra Fria
- anos 1950
- anos 1960
- anos 1970
- anos 1980
Temas
- acidentes nucleares
- Guerra Fria
- tecnologia militar
- economia
- ditadura
- propaganda
- segredo de Estado
- corrupção
- reformas políticas
- espionagem
- desagregação de impérios
Eventos
- Desastre de Chernobyl
- Sputnik
- chegada do homem à Lua
- Guerra de Outubro de 1973
- invasão soviética do Afeganistão
- batalha aérea do Vale de Beca
- Iniciativa de Defesa Estratégica
- acidente nuclear de Mayak
- acidente de Three Mile Island
- acidente de Fukushima
- aterragem de Matthias Rust na Praça Vermelha
Guerras e conflitos
- Guerra Fria
- Guerra de Outubro de 1973
- invasão do Afeganistão
Livros citados
- Memórias de Mikhail Gorbachev
- Biografia de Gorbachev por William Taubman