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Nº 13723 de fevereiro de 202240:49resposta a ouvintes

Ucrânia: que país é este, afinal?

O episódio traça a história da Ucrânia desde a Alta Idade Média até à independência em 1991, explicando a complexa relação com a Rússia. Rui Ramos adverte contra o uso político da história para justificar reivindicações territoriais, mostrando como as fronteiras da região mudaram constantemente entre diversos impérios. A Ucrânia emerge como um território historicamente dividido, cuja instabilidade actual reflecte o rescaldo do colapso da União Soviética e a disputa entre Estados sucessores de impérios multinacionais.

Ideias principais

  1. A história não deve servir para justificar reivindicações políticas ou territoriais, pois situações passadas não determinam o futuro nem criam direitos automáticos, como ilustram os exemplos dos Plantagenetas em França ou do Reino de Kiev.
  2. A Ucrânia nunca foi um território estável até 1991, estando sempre dividida entre diversos poderes (vikings, mongóis, polacos, lituanos, austro-húngaros, russos, otomanos), o que explica a sua heterogeneidade linguística e religiosa actual.
  3. O ucraniano e o russo são línguas aparentadas mas distintas (38% de vocabulário diferente), numa relação semelhante ao português e francês, contrariando a narrativa de Putin de que o ucraniano é um dialecto do russo.
  4. A Ucrânia sofreu todos os horrores do século XX: ditadura estalinista, Holodomor, extermínio de 70% da população judaica pelos nazis, guerrilhas nacionalistas, repressão soviética com 200 mil executados, e limpeza étnica contra polacos.
  5. O conflito actual entre Rússia e Ucrânia é comparável ao problema das minorias alemãs no entreguerras, quando Estados mais fortes (como a Alemanha nazi) se viam como herdeiros de impérios multinacionais e reclamavam territórios dos Estados sucessores mais fracos.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem a uma pergunta colocada por vários ouvintes: como se cruza a história da Ucrânia com a da Rússia, e o que explica o conflito que os opõe? Antes de entrar no relato histórico propriamente dito, Rui Ramos faz uma advertência metodológica importante: a história não serve para resolver disputas políticas nem para justificar tomadas de partido. Usando o exemplo dos reis ingleses que durante séculos controlaram vastos territórios em França, sem que isso dê hoje ao Reino Unido qualquer direito sobre a Normandia ou a Bretanha, o historiador sublinha que situações do passado não criam direitos políticos no presente - e que o mesmo raciocínio se aplica à relação entre a Rússia e a Ucrânia.

A narrativa histórica começa na Alta Idade Média, com os territórios entre o Mar Báltico e o Mar Negro habitados por populações eslavas que, no século IX, passaram a ser dominadas por guerreiros escandinavos, provavelmente suecos, conhecidos como "russos". Estes estabeleceram a sua capital em Kiev e controlavam as rotas fluviais que ligavam o norte da Europa ao Mediterrâneo e aos mercados de Bizâncio e dos impérios islâmicos. O reino de Kiev abrangia o que hoje são a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia. Rui Ramos nota que esta origem escandinava foi deliberadamente apagada pela historiografia soviética de inspiração estalinista, retomada depois por Putin, por razões políticas evidentes.

Nos séculos seguintes, o território ucraniano foi repetidamente dividido e repartido entre potências externas. Os mongóis destruíram Kiev em 1240; depois vieram os polacos e os lituanos, que durante cerca de dois séculos integraram a maior parte da atual Ucrânia no reino da Polónia-Lituânia, o maior Estado europeu da sua época. Esta presença polaca deixou marcas profundas na língua e na religião ucranianas: o ucraniano ficou mais próximo do polaco do que do russo, e na parte ocidental do território surgiu a Igreja uniata, uma fusão entre o catolicismo e o cristianismo ortodoxo. No século XVIII, com a partilha da Polónia, a Ucrânia ficou dividida entre o Império Russo, o Império Austro-Húngaro e o Império Otomano, situação que persistiu, com variações, até à Primeira Guerra Mundial.

O século XX trouxe novos e devastadores ciclos de violência. Com o colapso dos impérios em 1917-1918, surgiram tentativas efémeras de independência ucraniana que não resistiram à pressão simultânea da Polónia e da União Soviética, acabando por dividir novamente o território entre ambas. A parte soviética foi palco das grandes fomes dos anos 1930, da invasão alemã de 1941 e do extermínio de cerca de um milhão de judeus. Após 1944, grupos nacionalistas ucranianos travaram uma longa guerra de guerrilha antissoviética, com cerca de 100 mil combatentes, que só foi esmagada pela repressão em meados dos anos 1950. Em 1945, a União Soviética constituiu formalmente a República Soviética da Ucrânia, integrando territórios que tinham pertencido à Polónia, e Khrushchev cedeu ainda a Crimeia à república ucraniana nos anos 1950. A independência definitiva só chegou em 1991, por referendo, com 90% de votos favoráveis.

Para concluir, os apresentadores enquadram o conflito atual como um rescaldo clássico da dissolução de impérios multinacionais: quando estes se fragmentam em Estados nacionais, as populações ficam misturadas, as fronteiras são contestadas e os Estados mais poderosos tendem a considerar-se herdeiros do antigo império e a olhar para os mais pequenos como extensões do seu espaço histórico. A analogia com a Alemanha de Hitler a invocar a proteção de minorias alemãs na Checoslováquia nos anos 1930 é evocada como um paralelismo inquietante, com a esperança de que o desfecho desta vez seja diferente.

Personagens

  • Vladimir Putin
  • Joseph Stalin
  • Henrique II de Inglaterra
  • Ricardo Coração de Leão
  • João sem Terra
  • Henrique III de Inglaterra
  • Henrique VI de Inglaterra
  • Nikita Khrushchev
  • Timothy Snyder

Lugares/Países

  • Ucrânia
  • Rússia
  • Polónia
  • Lituânia
  • Bielorrússia
  • Suécia
  • Império Bizantino
  • Império Otomano
  • Império Austro-Húngaro
  • Alemanha
  • Prússia
  • França
  • Inglaterra
  • Portugal
  • Itália
  • Checoslováquia
  • Hungria
  • Roménia
  • Palestina
  • Egito

Épocas

  • Alta Idade Média
  • séculos IX-XII
  • séculos XII-XIII
  • séculos XIV-XV
  • séculos XVI-XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Primeira Guerra Mundial
  • período entreguerras (1918-1939)
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • pós-1991

Temas

  • nacionalismo
  • imperialismo
  • guerra
  • religião
  • conversão religiosa
  • colonização
  • escravatura
  • genocídio
  • fome
  • russificação
  • limpeza étnica
  • guerrilha
  • independência
  • colapso de impérios
  • minorias étnicas
  • fronteiras
  • identidade nacional
  • repressão política

Eventos

  • Reino de Kiev
  • invasões mongóis
  • ocupação de Kiev (1240)
  • partilha da Polónia (século XVIII)
  • Revolução Russa (1917)
  • República Popular da Ucrânia (1917)
  • Holodomor (grande fome da Ucrânia)
  • Batalha de Kiev (1941)
  • Holocausto na Ucrânia
  • guerra de guerrilhas antissoviética (1944-1950)
  • referendo de independência da Ucrânia (1 de dezembro de 1991)
  • queda do Muro de Berlim (1989)
  • fim da União Soviética (1991)
  • cessão do arsenal nuclear ucraniano (1994)

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • guerra civil russa
  • guerra polaco-ucraniana
  • guerra de guerrilhas antissoviética (1944-1950)
  • Cruzadas

Livros citados

  • Bloodlands (Terras Sangrentas) - Timothy Snyder