Nº 27118 de setembro de 202448:15resposta a ouvintes
Uma breve história da servidão e seus horrores
Análise histórica da servidão desde a Idade Média até ao século XIX, distinguindo-a da escravatura e contrastando a sua evolução na Europa Ocidental (onde desaparece gradualmente a partir do século XIV) com a Europa Oriental (onde se intensifica nos séculos XVII-XVIII). O episódio explora as causas económicas e políticas destas divergências, com especial atenção ao caso russo, onde a abolição de 1861 criou contradições que alimentaram a Revolução de 1917.
Ideias principais
- A servidão é um conceito historiográfico do século XIX que descreve relações de dependência pessoal na agricultura medieval, distintas da escravatura porque os servos não eram propriedade pessoal vendável e tinham direito a cultivar terras para si próprios.
- Na Europa Ocidental a servidão desapareceu gradualmente entre os séculos XIV e XVI devido à peste negra, à escassez de mão-de-obra e ao fortalecimento das monarquias centralizadas, enquanto na Europa Oriental intensificou-se nos séculos XVII-XVIII pela ausência de Estados fortes e pela abertura de mercados de cereais.
- A abolição da servidão na Rússia em 1861 por Alexandre II, longe de resolver problemas sociais, criou profundas desigualdades no campo entre camponeses ricos (kulaks) e pobres, sendo esta modernização forçada uma causa maior da Revolução de 1917 do que o próprio atraso.
- O regime soviético estabeleceu paradoxalmente uma terceira servidão, desta vez estatal, ao colectivizar as terras e fixar os camponeses em unidades de produção obrigatórias com preços controlados, reproduzindo formas de dependência anteriores sob retórica progressista.
- A grande diversidade de situações de dependência nos campos medievais e modernos desafia qualquer definição simples, havendo simultaneamente servos, homens livres e escravos sob o mesmo senhorio, com prestações e estatutos muito variáveis conforme época e região.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado à servidão - um regime de dependência que atravessou mais de mil anos de história europeia e asiática e que, ao contrário da escravidão, raramente mereceu atenção pública comparável. O ponto de partida são três perguntas de ouvintes: uma sobre a servidão na Rússia e o seu impacto na Revolução de 1917, outra sobre a diferença entre servo e escravo e sobre as distintas formas como a servidão acabou na Europa Ocidental e Oriental, e uma terceira sobre a servidão na Ásia e a sua eventual relação com a visão do pobre como ser inferior.
Rui Ramos começa por esclarecer que a servidão é, antes de mais, um conceito historiográfico criado no século XIX para descrever realidades medievais muito diversas. Em traços gerais, os servos eram trabalhadores agrícolas vinculados hereditariamente a um domínio senhorial - não podiam abandonar a terra nem o seu trabalho, estavam sujeitos à justiça do senhor e a prestações de serviços pessoais, e dependiam da sua autorização para casar. Eram, porém, distintos dos escravos: não podiam ser vendidos separadamente da terra, tinham acesso a parcelas que cultivavam para si próprios e o senhor, por seu lado, não podia expulsá-los. A própria palavra "servo" vem do latim *servus*, que significava escravo, tendo o termo "escravo" derivado, provavelmente, da designação dos povos eslavos da Europa de Leste, de onde provinham muitos cativos do Império Bizantino. Na prática, a documentação medieval usa uma grande variedade de termos para situações análogas mas não idênticas, o que torna qualquer generalização arriscada.
Na Europa Ocidental, a servidão terá emergido com o colapso da autoridade pública romana e os subsequentes arranjos locais de protecção guerreira ou eclesiástica. A partir do século XIV, foi progressivamente desaparecendo - sem um acto formal de abolição - sob o efeito conjugado das mortandades da Peste Negra, que aumentou o poder negocial dos trabalhadores dos campos, e do crescimento das monarquias centralizadas, cujas estruturas administrativas e judiciais foram minando a dependência pessoal dos camponeses em relação aos senhorios. Mesmo assim, vestigios dessas prestações subsistiram até à Revolução Francesa, que em 1789 formalmente aboliu o feudalismo.
Na Europa Oriental, o processo foi exactamente inverso: quando a servidão declina no Ocidente, ela reforça-se a Leste, atingindo o seu auge nos séculos XVII e XVIII. A ausência de Estados centralizados com aparelho burocrático e judicial presente nas localidades deixou as populações sem alternativa ao poder senhorial, e a abertura de mercados de cereais ocidentais incentivou os grandes proprietários a fixar mão-de-obra nos seus domínios. Na Rússia, em 1861, 40 milhões de pessoas numa população de 60 milhões viviam ainda em situação servil. A abolição, decretada pelo czar Alexandre II na sequência da derrota na Guerra da Crimeia, foi acompanhada de enormes tensões: os ex-servos foram obrigados a pagar ao Estado pela sua própria libertação, e as reformas subsequentes que visavam criar uma agricultura de mercado geraram profundas desigualdades entre os camponeses, dividindo-os entre um grupo próspero - os culacs - e uma massa empobrecida ou sem terras. É esta modernização falhada e conflituosa, mais do que o atraso da servidão em si, que Rui Ramos aponta como verdadeiro caldo de cultura da Revolução de 1917. E a ironia histórica é que a União Soviética acabaria por restabelecer, sob a forma da colectivização forçada, uma dependência dos camponeses em relação ao Estado que não era muito diferente da servidão que pretendia ter superado.
O episódio termina com uma breve incursão pela Ásia, onde formas análogas de dependência da população rural em relação a guerreiros ou a elites religiosas foram igualmente comuns, sendo o sistema de castas indiano o exemplo mais codificado e duradouro. Rui Ramos situa toda esta discussão num debate historiográfico mais amplo sobre a "grande divergência" entre a Europa Ocidental e o resto do mundo na época moderna, reconhecendo que as relações de dependência nos campos são um factor relevante, mas dificilmente a explicação única ou decisiva para essa divergência.
Personagens
- Alexandre II da Rússia
- Abraham Lincoln
- José Mattoso
Lugares/Países
- Portugal
- Rússia
- França
- Inglaterra
- Alemanha
- Itália
- Áustria
- Prússia
- Polónia
- Ucrânia
- Bielorússia
- Países Bálticos
- Roménia
- Península Ibérica
- Europa Ocidental
- Europa Oriental
- Império Bizantino
- Índia
- Ásia
- Estados Unidos
- Américas
Épocas
- Idade Média
- Antiguidade
- século VIII
- século IX
- século X
- século XI
- século XII
- século XIII
- século XIV
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- anos 20
Temas
- servidão
- escravatura
- feudalismo
- trabalho agrícola
- dependência pessoal
- economia
- reforma agrária
- desigualdade social
- modernização
- revolução
- sistema de castas
Eventos
- Queda do Império Romano
- Peste Negra
- Revolução Francesa
- Guerra da Crimeia
- Revolução Bolchevista
- Abolição da servidão na Rússia
Guerras e conflitos
- Guerra da Crimeia
Livros citados
- Identificação de um país (José Mattoso)