Nº 36828 de julho de 20261h08série especial
Uma nova Constituição (independência americana 4)
Quarto episódio da série sobre os 250 anos da independência americana, centrado na elaboração da Constituição dos Estados Unidos de 1787 e na eleição de George Washington como primeiro presidente. O episódio explora como os Founding Fathers criaram um sistema inovador de separação de poderes e checks and balances para garantir a estabilidade republicana, evitando o destino de outras repúblicas que degeneraram em ditaduras. Aborda também a questão da escravidão como contradição fundacional que levaria à Guerra Civil.
Ideias principais
- A Constituição americana de 1787 foi produto de uma elite excepcionalmente talentosa de Founding Fathers, numa concentração rara de génio político (como ilustra a anedota de JFK sobre Jefferson), formada por uma sociedade próspera, letrada e com intensa vida pública nas 13 colónias.
- O sistema constitucional americano inovou ao criar uma república estável através da separação de poderes e checks and balances, contrariando a tradição histórica de que repúblicas inevitavelmente degeneravam em ditaduras (como aconteceria em França e na América Latina).
- George Washington foi absolutamente crucial ao recusar o poder militar em 1783 e estabelecer precedentes de moderação republicana, incluindo a limitação voluntária a dois mandatos e a recusa de títulos monárquicos, num acto comparável aos heróis romanos da antiguidade.
- A escravidão foi desde o início reconhecida como contradição fundamental pelos próprios Founding Fathers, mas foi tolerada como preço da união, com estados do Norte a abolirem rapidamente (Massachusetts em 1783 por decisão judicial iniciada pela escrava Elizabeth Freeman) enquanto o Sul mantinha a economia esclavagista.
- A visão dos Estados Unidos como futuro da humanidade e vanguarda civilizacional animou os fundadores, que não se viam apenas a criar mais um país mas a inaugurar uma nova era baseada na liberdade individual e no governo limitado, missão que levaria à Guerra Civil para cumprir a promessa da Declaração de Independência.
Resumo do episódio
Este episódio é o quarto e último de uma série dedicada aos 250 anos da independência dos Estados Unidos. Após terem abordado a colonização britânica, a Declaração de Independência e a Guerra da Revolução, Rui Ramos e João Miguel Tavares voltam a atenção para dois momentos decisivos na construção da nação americana: a elaboração da Constituição de 1787 e a eleição do primeiro presidente. A pergunta de fundo é a que percorre todo o episódio — como foi possível que, ao contrário de tantas outras revoluções, a americana tenha dado origem a um regime duradouro e estável?
Os apresentadores começam por contextualizar a extraordinária qualidade intelectual e política dos Founding Fathers. Ramos explica que esta elite não surgiu por acaso: os colonos americanos eram uma população próspera, bem alimentada, com elevadas taxas de literacia, catorze universidades, uma imprensa vigorosa e 1400 lugares parlamentares distribuídos pelas assembleias das treze colónias. Toda esta vida pública intensa atraiu talentos e forjou figuras como Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, James Madison, John Adams e Alexander Hamilton — este último nascido nas Caraíbas, chegado à América sem recursos, mas cedo reconhecido como um génio que precisava de uma guerra para subir na vida, e que acabaria por morrer num duelo em 1804. O que unia estes homens era também uma visão partilhada: acreditavam que estavam a fundar não apenas um país, mas o futuro da humanidade, herdeiros de uma civilização em permanente movimento para Ocidente.
O principal desafio que se colocava em 1783, finda a guerra, era o de transformar treze repúblicas soberanas numa federação coesa. Cada colónia tinha a sua Constituição, a sua moeda, as suas alfândegas e os seus interesses próprios. O Congresso Continental, que tinha funcionado durante a guerra, não tinha poderes fiscais nem capacidade de regular o comércio entre estados. Foi Alexander Hamilton quem propôs a solução financeira — um governo federal forte, capaz de assumir as dívidas de todos os estados, com um banco central e uma moeda única. Em 1787, reuniram-se em Filadélfia 55 delegados para redigir a Constituição federal. O plano de base foi elaborado por James Madison, inspirado na teoria da separação de poderes de Montesquieu: um Congresso bicameral — uma Câmara dos Representantes proporcional à população e um Senado com dois lugares por estado —, um presidente eleito por um colégio eleitoral com direito de veto, e um Supremo Tribunal de juízes vitalícios encarregado de garantir a supremacia da Constituição. O processo de ratificação foi acompanhado pelos célebres Federalist Papers, escritos por Hamilton, Madison e John Jay, que os apresentadores descrevem como uma das grandes obras da teoria política dos últimos 250 anos. Em 1791, foram acrescentadas dez emendas — o Bill of Rights —, das quais Ramos destaca duas: a Primeira, que proíbe qualquer limitação à liberdade de expressão, e a Segunda, que garante o direito ao porte de armas como fundamento da liberdade coletiva.
O segundo grande problema era saber se uma república conseguiria sobreviver. A história parecia condenar as repúblicas à instabilidade e à tirania — e a Revolução Francesa, que decorria em simultâneo, confirmava os piores receios. Foi aqui que George Washington se revelou insubstituível. Em 1783, recusou os apelos dos seus oficiais para que dissolvesse o Congresso e assumisse o poder, devolveu o seu mandato e regressou à sua quinta na Virgínia. Eleito por unanimidade primeiro presidente em 1788, escolheu o título simples de Mr. President em vez dos títulos majestáticos que lhe foram propostos, e recusou arrastar os Estados Unidos para a guerra revolucionária que a França pretendia exportar para o mundo. Ramos sublinha que as repúblicas da América Latina, apesar de copiarem a mesma Constituição, não produziram Washingtons — e os resultados foram bem diferentes.
Por fim, os apresentadores abordam o problema da escravidão, que ficou por resolver na Constituição de 1787 como preço da unidade nacional. Ramos nota que muitos dos próprios Founding Fathers eram pessoalmente contra a escravidão — o próprio Washington libertou os seus escravos no testamento — e que os estados do Norte começaram imediatamente a aprovar leis abolicionistas. Em Massachusetts, foi uma escrava, Elizabeth Freeman, que obteve a abolição por via judicial em 1783, invoc
Personagens
- George Washington
- Thomas Jefferson
- Alexander Hamilton
- Benjamin Franklin
- James Madison
- John Adams
- John Kennedy
- Elizabeth Freeman
- Thomas Paine
- Montesquieu
- John Jay
- Napoleão Bonaparte
- Simón Bolívar
- Abraham Lincoln
- Júlio César
Lugares/Países
- Estados Unidos da América
- Inglaterra
- Grã-Bretanha
- França
- Espanha
- América Central
- América do Sul
- Caraíbas
- Europa
- Mesopotâmia
Épocas
- século XVIII
- década de 1770
- década de 1780
- século XVII
- século XIX
- antiguidade
Temas
- constitucionalismo
- independência
- revolução
- democracia
- república
- escravatura
- abolicionismo
- separação de poderes
- federalismo
- guerra civil
- direitos individuais
- liberdade de expressão
- direito ao porte de armas
- industrialização
- agricultura
Eventos
- Declaração de Independência
- Guerra de Independência Americana
- Convenção Constituinte de Filadélfia
- Revolução Francesa
- Terror francês
- Guerra Civil Americana
- Revolução Inglesa de 1688
Guerras e conflitos
- Guerra de Independência Americana
- Guerra Civil Americana
Livros citados
- Federalist Papers
- Common Sense