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Nº 34013 de janeiro de 202646:17análise histórica

Venezuela: que país é este?

O episódio analisa a história da Venezuela desde a colonização espanhola até à crise actual, explicando os ciclos de prosperidade e colapso económico. Rui Ramos identifica quatro causas estruturais da instabilidade política latino-americana: origem militar das independências (caudilhismo), falta de unidade territorial, economia dependente de recursos naturais e populismo. A Venezuela exemplifica este padrão, oscilando entre a riqueza petrolífera e a miséria, agravada por ditaduras populistas como as de Chávez e Maduro.

Ideias principais

  1. A Venezuela foi independente desde 1830, tendo passado por cerca de 50 revoluções e 18 ditadores nos primeiros 100 anos, só conhecendo democracia estável entre 1958 e 1998.
  2. A instabilidade política da América Espanhola resulta de quatro factores: origem militar das independências (caudilhismo), falta de unidade territorial e identidade, economia dependente de exportações de recursos naturais, e populismo demagógico.
  3. A economia venezuelana segue um padrão cíclico de boom e colapso: períodos de prosperidade com investimento estrangeiro e endividamento massivo, seguidos de crises quando os preços internacionais caem, gerando inflação, miséria e êxodo populacional.
  4. O regime chavista (1998-presente) exemplifica o populismo demagógico típico: usa a riqueza petrolífera para criar dependentes do Estado, promove nacionalismo anti-americano, mas a corrupção e falta de investimento levaram a produção de petróleo a cair 75% e o PIB a encolher 80% entre 2014 e 2024.
  5. A crise venezuelana provocou o êxodo de 8 milhões de pessoas (20% da população), com 82% a viver abaixo da linha de pobreza, numa sociedade mantida por fraude eleitoral, repressão e milícias leais ao regime, incluindo muitos emigrantes portugueses que foram para lá após a descolonização africana.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* propõe-se a explicar a Venezuela a partir da sua história, respondendo à curiosidade de ouvintes que acompanham os acontecimentos recentes em torno do regime de Nicolás Maduro. Rui Ramos e João Miguel Tavares deixam claro desde o início que não comentam a actualidade política, mas usam a história para a iluminar.

O ponto de partida é geográfico e colonial. A Venezuela, com 912 mil quilómetros quadrados e 28 milhões de habitantes, tem uma densidade populacional muito baixa e uma geografia extremamente variada, da costa tropical às cordilheiras andinas e às planícies interiores onde se criava gado. O nome do país terá sido inspirado por Américo Vespúcio, que ao ver casas indígenas sobre estacas nos canais costeiros se lembrou de Veneza. Os europeus instalaram-se a partir de 1522 e fundaram Caracas em 1567. A população nativa, que poderá ter chegado a um milhão de pessoas, foi dizimada por epidemias no fim do século XVI. Em 1800, o território tinha apenas 600 mil habitantes, metade dos quais nativos. Já no século XVIII, a Venezuela foi separada do vice-reinado de Nova Granada e constituída como capitania-geral com capital em Caracas, adquirindo assim uma identidade política própria ainda dentro do império espanhol.

A independência chegou de forma turbulenta. A invasão napoleónica da Península Ibérica em 1807-1808 criou um vazio de poder que os crioulos aproveitaram para formar juntas de governo. Figuras como Francisco de Miranda e Simón Bolívar proclamaram a independência em 1811, mas o objectivo era mais ambicioso: criar uns Estados Unidos da América do Sul. A resistência dos realistas, nomeadamente os vaqueiros do interior fiéis à coroa, prolongou a guerra até 1823. A Grande Colômbia, que reunia o actual território da Colômbia, Equador, Panamá e Venezuela, desagregou-se rapidamente, e a Venezuela tornou-se um Estado independente em 1830.

O primeiro século de vida independente foi extraordinariamente instável: estima-se que tenham ocorrido cerca de 50 revoluções e 18 ditaduras entre 1830 e 1931. Rui Ramos identifica quatro causas estruturais desta instabilidade, que se aplicam não apenas à Venezuela mas à generalidade da antiga América espanhola. A primeira é a origem militar das independências, que colocou generais - os chamados caudilhos - no centro do poder político, gerando rivalidades constantes entre si. A segunda é a falta de coesão interna dos novos Estados, com fronteiras indefinidas, identidades regionais muito marcadas e profundas divisões entre federalistas e centralistas, que na Venezuela chegaram a provocar uma guerra civil entre 1859 e 1863 com cerca de 100 mil mortos. A terceira causa é económica: estes países viveram de recursos naturais ou produções agrícolas tropicais destinados à exportação, como o café no século XIX e o petróleo no século XX, criando ciclos de prosperidade e colapso que desestruturaram permanentemente as sociedades. A quarta causa é o populismo político: nos momentos de bonança, demagogos prometem ainda mais benefícios; nos momentos de crise, outros chegam ao poder culpando as elites corruptas e os interesses estrangeiros pelos males do país.

A Venezuela tornou-se um petrostado em que a indústria petrolífera passou a representar quase 90% das exportações e metade das receitas do Estado. A riqueza do petróleo atraiu milhões de imigrantes - entre os quais portugueses - e duplicou a população entre 1970 e 1990. Quando os preços do petróleo caíram em meados dos anos 1980, o país entrou em crise. Foi nesse contexto que Hugo Chávez emergiu, primeiro com uma tentativa de golpe em 1992 e depois eleito presidente em 1998. Chávez construiu um regime autoritário, usou as receitas petrolíferas para criar uma clientela de dependentes do Estado e legitimou-se num discurso anti-americano permanente. A produção de petróleo foi caindo por falta de investimento, e quando os preços colapsaram após 2014, o PIB da Venezuela encolheu 80% numa década. Hoje 82% da população vive abaixo do limiar da pobreza e cerca de 8 milhões de pessoas abandonaram o país. O regime de Maduro mantém-se através de fraude eleitoral, mudanças constitucionais e repressão, sempre amparado na retórica da resistência ao imperialismo americ

Personagens

  • Américo Vespucci
  • Cristóvão Colombo
  • Napoleão Bonaparte
  • José Bonaparte
  • Francisco de Miranda
  • Simón Bolívar
  • Hugo Chávez
  • Nicolás Maduro
  • Donald Trump

Lugares/Países

  • Venezuela
  • Estados Unidos
  • Espanha
  • França
  • Grã-Bretanha
  • Portugal
  • Colômbia
  • Equador
  • Panamá
  • Brasil
  • Chile
  • México
  • Cuba
  • Itália
  • Guiana

Épocas

  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • século XXI

Temas

  • independência
  • colonialismo
  • guerra
  • escravatura
  • epidemias
  • petróleo
  • economia
  • ditadura
  • democracia
  • populismo
  • corrupção
  • inflação
  • emigração
  • desigualdade social
  • nacionalismo
  • caudilhismo

Eventos

  • invasões francesas da Península Ibérica
  • independência da Venezuela
  • Guerra Federal venezuelana
  • nacionalização do petróleo venezuelano
  • golpe de Estado de Hugo Chávez

Guerras e conflitos

  • guerras de independência da América Espanhola
  • Guerra Federal (1859-1863)