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Nº 8203 de fevereiro de 202142:30resposta a ouvintes

Viver com os lobos no Alentejo do século XX

Episódio que responde a perguntas de ouvintes sobre três temas distintos: a presença de lobos no Alentejo até ao século XX e os sistemas de recompensa pelo seu abate; o misterioso caso da execução de Francisco de Lucena, secretário de Estado de D. João IV, degolado em 1643 por suspeita de traição; e a revolta republicana falhada de 31 de Janeiro de 1891 no Porto, que durou apenas algumas horas.

Ideias principais

  1. Os lobos existiram em Portugal continental, incluindo no Alentejo, até meados do século XX, numa paisagem muito menos povoada e humanizada do que hoje, com incentivos municipais ao seu abate desde o século XIX.
  2. Francisco de Lucena foi executado em 1643 não apenas por suspeita de traição a D. João IV, mas sobretudo porque a nobreza restauradora o via como um valido demasiado poderoso que os excluía do poder, tornando a sua queda quase um segundo golpe de Estado.
  3. A revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891 no Porto foi uma sargentada mal organizada, liderada apenas por militares de baixa patente e sem apoio civil significativo, reprimida pela Guarda Municipal em poucas horas.
  4. O movimento de 31 de Janeiro resultou da agitação criada pelos progressistas após o Ultimato Britânico de 1890, mas foi posteriormente recuperado pela propaganda republicana como prova de um movimento de longa duração que culminou em 1910.
  5. Portugal teve populações muito menores no passado (1 milhão em 1500, 3 milhões em 1800, 5 milhões em 1900) e vastas áreas não cultivadas até ao século XX, criando condições para fauna selvagem que hoje nos parecem impossíveis.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam três temas distintos, todos eles motivados por perguntas de ouvintes ou por efemérides do calendário. O fio condutor é, em cada caso, a distância entre o Portugal de hoje e um país que, há não muito tempo, funcionava segundo lógicas completamente diferentes.

O primeiro tema parte de um recorte de jornal de 1931, enviado por um ouvinte do Crato, que noticiava o abate de um lobo em Aldeia da Mata, no Alentejo. A pergunta é simples: como era possível existirem lobos no sul de Portugal tão recentemente? Os apresentadores explicam que, para compreender esse mundo, é preciso imaginar um país muito menos povoado e muito menos marcado pela presença humana. Em 1800, Portugal tinha cerca de três milhões de habitantes; em 1900, cerca de cinco milhões. Mais de metade do território não estava cultivado nem aproveitado em meados do século XIX. Nesse contexto, alcateias podiam vaguear livremente. Até ao século XIX, a fauna de maior porte estava parcialmente protegida pelas cotadas - reservas de caça privadas da nobreza e do rei -, o que criava tensão com as populações rurais, impedidas de defender as suas culturas e rebanhos. Com o fim dessas reservas, o choque entre pessoas e animais selvagens intensificou-se precisamente quando a população agrícola atingia o seu máximo histórico, em meados do século XX. O lobo foi sendo eliminado de sul para norte e do litoral para o interior, através de prémios pelo abate, forjos, armadilhas, armas de fogo e venenos. Hoje, a principal causa de morte do lobo é o atropelamento.

O segundo tema é a figura de Francisco de Lucena, secretário do Conselho de Estado de D. João IV, decapitado em 1643, apenas três anos após a Restauração. Lucena era um homem da confiança da Casa de Bragança, mas tinha passado anos em Madrid como secretário do Conselho de Portugal, acumulando contactos com a monarquia hispânica. Quando a Restauração aconteceu, manteve correspondência com pessoas em Espanha - provavelmente por razões familiares e de prudência, dada a incerteza sobre o sucesso do novo reino -, correspondência essa que acabou por ser usada contra ele como prova de traição. Mas Rui Ramos sugere que a explicação mais profunda está noutro plano: Lucena pretendia governar como uma espécie de valido, à semelhança do Conde-Duque de Olivares em Espanha, aconselhando o rei a manter continuidade com a administração anterior e a não recompensar excessivamente os fidalgos restauradores. Estes, ressentidos, pressionaram o rei nas cortes de 1642 e acabaram por obter a queda e execução de Lucena. D. João IV, aparentemente convencido da inocência do secretário, não teve força para o salvar. Após a morte de Lucena, o cargo foi dividido por vários titulares, o poder diluído em conselhos, e o rei foi obrigado a conviver mais de perto com a sua nobreza - numa espécie de segundo golpe dentro da própria Restauração.

O terceiro tema é a revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891 no Porto, cujo 130.º aniversário se assinalava. O episódio nasceu da agitação gerada pelo ultimato britânico de 1890 e das manobras dos partidos monárquicos, que instrumentalizaram os republicanos para fins eleitorais e depois os abandonaram. Uma facção da antiga direcção do Partido Republicano, para não ser ultrapassada pelos sectores mais radicais, aliou-se a sargentos descontentes da guarnição do Porto e a um grupo de agitadores civis. Na madrugada de 31 de Janeiro, cerca de seiscentos homens ocuparam a Câmara Municipal e proclamaram a República - sem um único general, sem praticamente oficiais, e sem apoio civil organizado. A Guarda Municipal, que não aderiu ao movimento, dispersou os revoltosos antes do amanhecer. Os condenados foram quase todos amnistiados em poucos anos. O próprio Partido Republicano condenou o golpe como uma aventura irresponsável. Só mais tarde, já após a implantação da República em 1910, o 31 de Janeiro foi recuperado como símbolo de uma longa tradição republicana - uma memória construída retrospectivamente para dar profundidade histórica a um regime que, na prática, tinha chegado ao poder em circunstâncias muito conjunturais.

Personagens

  • João Barriguinha Marques
  • José Alves do Rio
  • D. João IV
  • Francisco de Lucena
  • Filipe IV de Habsburgo
  • Conde-Duque de Olivares
  • Marquês de Vila Real
  • Duque de Caminha
  • Duquesa de Mântua
  • D. Afonso VI
  • Conde de Castelo Melhor
  • Marquês de Pombal
  • D. José
  • Infante D. Duarte
  • Pedro Vieira da Silva
  • António Cavide
  • D. Carlos I
  • Alves da Veiga

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • Brasil
  • Inglaterra
  • Áustria
  • Zimbábue
  • Zâmbia

Épocas

  • século XV
  • século XVI
  • século XIX
  • século XX
  • 1500
  • 1640
  • 1800
  • 1850
  • 1860
  • 1890
  • 1891
  • 1900
  • 1910
  • 1931
  • 1961
  • anos 60 do século XX
  • anos 70

Temas

  • fauna selvagem
  • extinção de espécies
  • caça
  • política
  • nobreza
  • traição
  • restauração da independência
  • golpe de Estado
  • monarquia
  • república
  • agitação política
  • movimentos revolucionários
  • colonialismo
  • diplomacia

Eventos

  • Restauração de 1640
  • 31 de Janeiro de 1891
  • Ultimato Britânico de 1890
  • Proclamação da República Brasileira de 1889
  • Implantação da República Portuguesa de 1910