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Nº 26507 de agosto de 202438:49efeméride

Watergate e a demissão do presidente Nixon

O episódio analisa o escândalo Watergate e a demissão de Richard Nixon em Agosto de 1974, nos 50 anos da efeméride. Rui Ramos explica como o arrombamento da sede democrata em 1972, a tentativa de encobrimento e as gravações secretas da Casa Branca expuseram Nixon, apesar da sua vitória eleitoral esmagadora. O caso demonstrou o funcionamento do sistema de checks and balances americano, mas também marcou uma perda de inocência e aumento do cinismo na política dos EUA.

Ideias principais

  1. Nixon envolveu-se em operações ilegais contra adversários não por necessidade eleitoral - tinha vitória garantida em 1972 - mas por paranoia, complexo de inferioridade e convicção de que todos jogavam sujo contra ele.
  2. O que destruiu Nixon não foi o arrombamento em si, mas a operação de encobrimento (cover-up) e obstrução da justiça, crimes dos quais há provas diretas do envolvimento presidencial através das gravações secretas.
  3. O sistema americano funcionou de forma exemplar: FBI, Departamento de Justiça, Supremo Tribunal e Congresso (incluindo republicanos) demonstraram independência face ao Presidente, colocando obrigações constitucionais acima da lealdade partidária.
  4. As gravações secretas da Casa Branca, instaladas por Nixon para proteger-se de colaboradores, revelaram não só crimes mas uma linguagem e mentalidade que chocaram a América: um presidente que não respeitava leis nem instituições e usava linguagem obscena constantemente.
  5. Watergate representou a segunda grande perda de inocência americana após o assassinato de Kennedy, criando um clima de cinismo e desconfiança na política que contaminou duramente a democracia dos EUA até hoje.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado ao escândalo Watergate e à consequente demissão do presidente norte-americano Richard Nixon, ocorrida há cinquenta anos, a 9 de agosto de 1974. A pergunta de partida que Rui Ramos e João Miguel Tavares colocam é, à primeira vista, paradoxal: por que razão um presidente com a reeleição praticamente garantida, apoiado por sondagens favoráveis e com um adversário democrata considerado demasiado radical para a maioria do eleitorado, autorizou ou tolerou uma operação de espionagem tão desnecessária quanto arriscada? A resposta, argumentam os apresentadores, está menos nos factos imediatos do caso e mais na psicologia e na trajectória política do próprio Nixon.

Para compreender o escândalo, Rui Ramos recua à formação política de Nixon: um republicano da costa oeste, de origem modesta, que sempre se sentiu um intruso num sistema dominado por dinastias estabelecidas e pelo Partido Democrata, que controlara o Congresso e a maioria das presidências desde os anos trinta. A derrota nas eleições de 1960 para John Kennedy - que Nixon atribuiu a fraude eleitoral democrata em Chicago - aprofundou esta desconfiança. O macartismo, com a sua lógica de inimigos encobertos e de conspirações comunistas, reforçou ainda mais a sua tendência para ver adversários por todo o lado. Quando, nos anos sessenta, a imprensa e as universidades se viraram contra a guerra do Vietname - uma guerra iniciada por presidentes democratas - Nixon sentiu-se cercado por uma minoria barulhenta que jogava sujo contra ele. A sua resposta foi decidir jogar ainda mais sujo do que os seus inimigos, convencido de que as administrações Kennedy e Johnson tinham feito exactamente o mesmo com escutas telefónicas e pressões fiscais sobre adversários.

É neste contexto que, em junho de 1972, cinco homens ligados à campanha de reeleição de Nixon são apanhados a colocar escutas na sede do Partido Democrata no complexo Watergate, em Washington. O escândalo não eclode, porém, pelo arrombamento em si, mas pelo que se segue: os colaboradores do presidente tentam comprar o silêncio dos detidos com dinheiro do comité de reeleição, cometendo assim o crime de obstrução da justiça. O FBI segue o rasto do dinheiro e percebe a ligação à presidência. Os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, do *Washington Post*, recebem informações do vice-director do FBI, Mark Felt - a famosa fonte anónima "Garganta Funda", cuja identidade só seria revelada em 2005 -, e publicam as primeiras revelações, embora sem grande impacto eleitoral imediato.

Os apresentadores sublinham que o papel da imprensa, por mais relevante que seja, não foi o único motor da queda de Nixon. O que verdadeiramente destruiu a presidência foi o funcionamento do sistema institucional americano na sua globalidade: a polícia, o Departamento de Justiça, o Supremo Tribunal e o Congresso, incluindo congressistas republicanos, agiram de forma independente do executivo. Funcionários nomeados pelo próprio Nixon recusaram cumprir as suas ordens ilegais e demitiram-se. Um comité especial do Senado, aprovado por unanimidade, investigou o presidente. E quando alguns colaboradores íntimos perceberam que Nixon os estava a preparar como bodes expiatórios, resolveram cooperar com a justiça.

O golpe final veio das gravações secretas que o próprio Nixon mandara instalar na Casa Branca para registar todas as conversas. Obrigado pelo Supremo Tribunal a entregá-las, Nixon viu as fitas exporem não apenas a sua cumplicidade no encobrimento, mas também uma linguagem grosseira e uma visão completamente cínica das instituições que jurava defender. Oitenta e cinco por cento dos americanos acompanharam as audiências televisivas, e a imagem que emergia não tinha nada a ver com a figura pública do presidente. Nixon acabou por se demitir em agosto de 1974, sendo depois perdoado pelo seu sucessor, Gerald Ford. O episódio encerra com uma reflexão sobre as consequências duradouras do caso: tal como o assassínio de Kennedy em 1963, o Watergate representou uma segunda perda de inocência da democracia americana, instilando um cinismo político cujas ondas, notam os apresentadores, ainda hoje se fazem sentir.

Personagens

  • Richard Nixon
  • Bob Woodward
  • Carl Bernstein
  • George McGovern
  • Dwight Eisenhower
  • John F. Kennedy
  • Lyndon Johnson
  • Joe McCarthy
  • Franklin Roosevelt
  • Mark Felt
  • Gerald Ford
  • Oliver North
  • Ronald Reagan
  • Martha Mitchell

Lugares/Países

  • Estados Unidos da América
  • China
  • Vietname
  • União Soviética
  • Massachusetts
  • Chicago
  • Washington

Épocas

  • anos 1970
  • Guerra Fria
  • século XIX
  • século XX
  • anos 1960
  • anos 1950
  • anos 1930
  • anos 1980

Temas

  • escândalo político
  • corrupção
  • espionagem
  • jornalismo investigativo
  • obstrução da justiça
  • impeachment
  • democracia
  • separação de poderes
  • abuso de poder
  • Guerra do Vietname

Eventos

  • Watergate
  • eleições presidenciais de 1972
  • eleições presidenciais de 1968
  • eleições presidenciais de 1960
  • demissão de Nixon
  • visita de Nixon à China
  • crise do petróleo de 1973
  • macartismo
  • assassinato de Kennedy
  • escândalo Irão-Contras

Guerras e conflitos

  • Guerra Fria
  • Guerra do Vietname
  • Segunda Guerra Mundial

Livros citados

  • Pentagon Papers