Nº 22104 de outubro de 202340:00efeméride
Yom Kippur: a pequena guerra que mudou o mundo
Análise dos 50 anos da Guerra do Yom Kippur (outubro de 1973), conflito de 20 dias entre Israel e uma coligação árabe liderada pelo Egito e Síria. Apesar da vitória militar israelita, a guerra teve consequências decisivas: permitiu ao Egito de Sadat restaurar a honra e negociar a paz com Israel (1978), terminou as guerras convencionais entre Estados árabes e Israel, expôs a fragilidade tecnológica soviética face aos EUA, e desencadeou o choque petrolífero que transformou a economia mundial e o paradigma liberal dos anos 1980.
Ideias principais
- A Guerra do Yom Kippur foi a última guerra convencional entre Israel e Estados árabes, marcando uma mudança para conflitos com grupos armados como Hezbollah e Hamas.
- Anwar Sadat conseguiu transformar uma derrota militar numa vitória política ao celebrar apenas os sucessos iniciais da guerra, permitindo-lhe negociar a paz com Israel em 1977-78 e romper com a União Soviética.
- A Batalha do Vale de Beká (1982) revelou o fosso tecnológico decisivo entre armamento americano e soviético, com Israel a destruir 80 aviões sírios sem perdas, contribuindo para a percepção de declínio soviético que levou à perestroika.
- O embargo petrolífero árabe de 1973 desencadeou o primeiro choque do petróleo, expondo a vulnerabilidade das economias ocidentais dependentes de petróleo barato e gerando estagflação que desacreditou o keynesianismo.
- Rui Ramos relata como aos 11 anos acompanhava diariamente a guerra através de mapas e jornais, revelando como este conflito capturou a atenção mundial e iniciou o seu interesse pela história contemporânea.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado ao cinquentenário da Guerra do Yom Kippur, travada em outubro de 1973 entre Israel e uma coligação de países árabes liderada pelo Egito e pela Síria. Rui Ramos e João Miguel Tavares - que recorda com nostalgia a forma apaixonada como acompanhou os combates aos onze anos, recortando mapas dos jornais com colegas do ciclo preparatório - defendem que este conflito de apenas vinte dias foi um daqueles momentos que separam épocas, com consequências que se prolongam até aos dias de hoje.
Para compreender a guerra, os apresentadores recuam à fundação do Estado de Israel em 1948 e ao ciclo de conflitos convencionais que se seguiu, com o ponto alto na Guerra dos Seis Dias de 1967, em que Israel destruiu em menos de uma semana as forças aéreas e terrestres do Egito, da Síria e da Jordânia, ocupando a Península do Sinai, os Montes Golã e a margem ocidental do Jordão. Essa vitória fulminante, argumentam, criou um paradoxo: abriu a possibilidade teórica de trocar territórios por paz, mas tornou essa paz impossível no imediato, porque as ditaduras militares egípcia e síria não podiam negociar sem primeiro reparar a humilhação sofrida. Do lado israelita, quem queria devolver territórios em troca de reconhecimento também precisava de demonstrar que o poderio militar de Israel tinha limites. Ambos os lados necessitavam, por razões distintas, de mais uma guerra antes de poder haver paz.
A guerra eclodiu a 6 de outubro de 1973, num ataque surpresa lançado no dia mais sagrado do calendário judaico. Rui Ramos explica que Golda Meir, primeira-ministra israelita, foi avisada do ataque iminente - nomeadamente pelo rei da Jordânia, que não participou no conflito -, mas optou por não atacar preventivamente para não aparecer como agressor, dado que a imagem internacional de Israel havia mudado muito desde 1967. O fator decisivo nos primeiros dias foi tecnológico: os exércitos egípcio e sírio dispunham de modernos sistemas de mísseis antiaéreos e antitanque de fabrico soviético que Israel não esperava encontrar tão eficazes, chegando a perder mais de cem aviões em poucos dias. Só ao fim de três ou quatro dias é que as forças israelitas encontraram formas de neutralizar esses sistemas e passaram à ofensiva, chegando a trinta quilómetros de Damasco e a cem do Cairo, antes de os Estados Unidos pressionarem para um cessar-fogo, receosos de uma escalada direta com a União Soviética.
As consequências políticas foram profundas. No Médio Oriente, a guerra permitiu ao presidente egípcio Anwar Sadat recuperar a honra suficiente para, em novembro de 1977, se deslocar a Israel e propor ao parlamento israelita a paz em troca da devolução do Sinai - um gesto sem precedentes que culminou nos acordos mediados pelos Estados Unidos em 1978. O Egito, o maior Estado árabe, saiu assim da frente anti-Israel, tornando praticamente impossível uma nova guerra convencional de coligação. Sadat pagaria com a vida em 1981, assassinado por quem o considerava um traidor. Em Israel, o custo político da surpresa inicial levou à queda do Partido Trabalhista em 1977, após três décadas no poder, e à chegada do Likud ao governo. Já em 1982, uma batalha aérea de duas horas no vale da Bekaa, no Líbano, em que Israel destruiu oitenta aviões sírios sem perder nenhum, revelou ao mundo - e à própria liderança soviética - o fosso tecnológico que se havia aberto entre o armamento americano e o soviético, contribuindo, segundo Rui Ramos, para o processo que levaria à Perestroika e ao colapso da União Soviética.
No resto do mundo, o impacto da guerra fez-se sentir através do primeiro choque petrolífero: os países árabes produtores cortaram o fornecimento de petróleo ao Ocidente em represália pelo apoio a Israel, desencadeando uma inflação que se somou às tensões económicas já existentes e deu origem à chamada estagflação. Este choque acelerou a viragem para políticas de contenção da despesa e liberalização económica no final da década de 1970, não por acaso coincidindo com o Prémio Nobel de Economia atribuído a Friedrich
Personagens
- Golda Meir
- Anwar Sadat
- Gamal Abdel Nasser
- Moshe Dayan
- Friedrich Hayek
Lugares/Países
- Israel
- Egito
- Síria
- Jordânia
- Iraque
- Líbano
- Arábia Saudita
- Iémen
- Estados Unidos
- União Soviética
- Península do Sinai
- Montes Golã
- Damasco
- Cairo
- Canal do Suez
- Vale de Beká
- Palestina
- Médio Oriente
- Europa Ocidental
- Afeganistão
Épocas
- século XX
- década de 1960
- década de 1970
- década de 1980
- pós-Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
Temas
- guerra
- diplomacia
- nacionalismo árabe
- tecnologia militar
- petróleo
- economia
- crise energética
- inflação
- liberalismo económico
- Guerra Fria
- conflito israelo-árabe
Eventos
- Guerra do Yom Kippur
- Guerra dos Seis Dias
- Guerra de Outubro
- Fundação do Estado de Israel
- Crise do petróleo de 1973
- Acordos de Camp David
- Batalha do Vale de Beká
- Invasão soviética do Afeganistão
- Maio de 68
- Colapso da União Soviética
Guerras e conflitos
- Guerra do Yom Kippur
- Guerra dos Seis Dias
- Guerra de 1948
- Guerra de Outubro de 1973
- Invasão israelita do Líbano (1982)